1, 2,3, 4, 5 anos depois (ou Pede que eu te chupo!)

(carta de repúdio do Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual GUDDS! UFMG)

Em 2007, @s estudantes veteranos da engenharia impunham como rito de passagem @s calour@s um trote em que semi-nus, pintad@s e suj@s de farinha caminhavam pelo campus em direção à avenida Antônio Carlos entoando cantos, dentre eles um que ficou famoso “1, 2, 3, 4, na FAFICH só tem viado. 4,3,2,1 eles dão pra qualquer um”. Frente a essa situação de clara intolerância e homofobia, um grupo de estudantes se reuniu para dizer que não era possível continuar tolerando a homofobia dentro do campus e cobrar da administração alguma atitude. Nascia assim o GUDDS! – Grupo Universitário em Defesa da Diversidade Sexual.

Em resposta aos trotes homofóbicos o GUDDS realizou dentro da UFMG duas audiências públicas, em que denunciava a existência dessas ações. Em resposta a administração, representada na maioria das vezes em que o diálogo ocorreu pela Diretoria de Assuntos Estudantis – DAE, se recusava a reconhecer a situação. Em um primeiro momento afirmou claramente desconhecer do trote, em um segundo, afirmou que mesmo que ele ocorresse, não haveria ali nenhuma homofobia, apenas um rito de passagem compartilhado pel@s estudantes. Sob pressão a administração realizou uma campanha chamada “a diversão não é só sua”, para tentar instituir um ambiente de maior tolerância, mas não abordou diretamente a questão do machismo ou homofobia nos trotes.

Cinco anos se passaram desde 2007 e nos perguntamos: reitoria, o que foi feito em relação aos trotes homofóbicos e machistas? Aparentemente nada. Jornais locais, como o Estado de Minas, apontam que nessa quinta, dia 22 de Março de 2012, mais uma vez ocorreu um trote que faz uso de violências como um ritual de passagem. Segundo os relatos dos jornais não apenas duas calouras foram amarradas a um poste, como alguns veteranos fantasiados de policiais pegaram uma camisinha, colocaram em um cassetete e fizeram com que calouros e calouras chupassem. O GUDDS exige imediata investigação para que se apure a veracidade dos fatos narrados.

Caso considerados verdadeiros, o GUDDS repudia essa ação d@s veteran@s, não é possível que se tolere trotes em que se violente mulheres, restrinja suas liberdades e as reduzam a objetos. Não é razoável que a dinâmica do trote seja pacífica como afirmam @s organizadores. Sabemos que o consentimento nessas ações coletivas é algo fraco, que a recusa de participar dos trotes muitas vezes é algo impossível, mesmo que seja anunciado como tal, pois há o medo d@ calour@ da rejeição pela turma e pel@s veteran@s no caso da recusa. Participar do ritual é uma forma de ser aceit@ no grupo e por essa razão muit@s consentem com a humilhação.

Além disso, sabemos que a dinâmica pela qual o preconceito atua impede de percebermos os limites da realidade, o machismo e a homofobia nos cegam de percebermos nossas próprias ações como machistas e homofóbicas! A ideia que organiza esse tipo de trote reproduz uma hierarquia de gênero, sexualidade e poder: masculino/feminino, chupado/chupador, dominante/dominado, humano/inumano, sujeito/objeto. O falo que é chupado nessa relação é um símbolo de poder, daquele que é chupado em relação ao que chupa (um símbolo de poder reforçado pelas vestimentas de policial). O ato de chupar nessa situação representa algo degradante, uma relação de submissão e que é ligada diretamente ao feminino, ou seja, aquele que não possui o falo. O chupador, por não possuir o poder do falo, se submete ao outro. Ele deixa de ser sujeito, a humilhação ligada a relação de subalternização retira a condição de sujeito e de humano daquele que chupa, reduzindo-o a objeto. Quando aplicado a outros homens a ação de chupar aplica uma lógica similar: dessa vez, o ato de chupar não é visto como algo adequado para o comportamento masculino, uma vez que chupar está ligado ao feminino. Sendo assim, o homem ao se aproximar do feminino perde sua condição de poder, sendo reduzido a condição de homossexual – como se a homossexualidade fosse uma deterioração da masculinidade heterossexual em direção ao feminino -. Em última instância a humilhação percebida nessa brincadeira se dá porque se atribui tanto ao feminino quanto ao homossexual status negativos. O que esse trote quer dizer é que em nossa sociedade mulheres e homossexuais são seres inferiores. Esse trote está dizendo que chupar não é algo bom!

O GUDDS não coaduna com esse projeto de sociedade reproduzido pelos estudantes do IGC em que feminilidade e homossexualidade são coisas negativas. Abaixo o falocentrismo, o machismo e a homofobia! Reivindicamos o direito a autodeterminação das nossas próprias identidades, reivindicamos a autonomia aos nossos corpos, afirmamos veementemente que ser mulher, ser gay, travesti, lésbica, bi ou trans é bom! Aproveitamos também para ressignificar a ideia do chupar. Gritamos em alto e bom tom: somos senhor@s de nossos corpos, de nossos fazeres e de nossos gozos. Chupamos e não somos inferiores. Chupamos se queremos, quando queremos e quem queremos. Chupamos, somos chupad@s e convidamos a todos vocês para chuparem e serem chupad@s. Chupamos e é bom!

Com isso o GUDDS deseja reivindicar o fim dos trotes homofóbicos e machistas dentro da UFMG com a investigação e responsabilização dos organizadores caso seja confirmado como verídico o conteúdo machista e homofóbico. Reivindicamos que a UFMG institua imediatamente políticas para evitar futuros trotes homofóbicos e machistas. Reivindicamos uma política integral de promoção do respeito a diversidade sexual e as mulheres na Universidade!

Edit:

Em tempo, a reitoria da UFMG por volta das 16:40 de hoje (sexta 23.03.12) divulgou uma carta na qual repudia os trotes discriminatórios. Confira o inteiro teor clicando na miniatura abaixo:

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5 Respostas para “1, 2,3, 4, 5 anos depois (ou Pede que eu te chupo!)

  1. vai a meeeeeeeeeerda quem ta inventando esse tanto de coisa! vocês são muito inúteis! sou caloura do turismo, participei do trote ontem e não é bem assim como vocês estão falando não! deveriam ter filmado para saber o que realmente aconteceu antes de ir inventando abobrinha para ter ibope!

  2. Não podemos permitir que essa violência perdure nesta universidade machista e homofóbica! Precisamos nos mobilizar!!!

  3. Clarice Macieira

    Melissa, como foi o trote então? Você que participou poderia dizer? Não acho que uma história dessas seria inventada…enfim.

  4. Gustavo Melo

    Trotes machistas e homófóbicos são históricos na universidade, infelizmente. Um de seus reflexos (antisíntese, diria eu) é a existência do GUDDS! e do Maio de 78/COLTEC. Em 2009 se deu um passo importante no combate à opressão de “minorias” na universidade, com a fundação do GUDDS!. Mas será que o movimento LGBT universitário vem cumprindo o seu importante papel de maneira efetiva na comunidade universitária? É o que eu reflito desde que entrei na UFMG, em 2009. Será que o “ativismo acadêmico” é a melhor metodologia de atuação na universidade frente ao sexismo e heteronormatividade? Ou será que reproduz um “efeito bolha”, centralizando negativamente valorozas pessoas que se dispõe a fazer algo que descontrua esses preconceitos, tando na academia quanto na sociedade? A QUANTO TEMPO QUE O GUDDS! REALMENTE SE DISPÕE A IR ATÉ AOS ESTUDANTES NAS SUAS UNIDADES, SALAS DE AULA E ETC. ORGANIZANDO AÇÕES DE COMBATE À HOMOFOBIA E CONSTRUÇÃO DA CIDADANIA? A quanto tempo que a web page da Articulação Feminina do GUDDS! não é atualizada? A quanto tempo que o GUDDS! não responde um chamado de forma efetiva dos movimentos estudantis organizados na universidade? Será que o tamanho gasto de energia gasto no NUH – Núcleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da UFMG, é o melhor caminho a ser tomado por um grupo de “ativistas” LGBT organizados na universidade? Acredito serem essas importantes questões para serem refletidas. E acredito que a manutenção (e até mesmo ampliação) de ações sexistas e homóficas na UFMG estão relacionadas de certa forma com o método de atuação que o GUDDS! vem escolhendo nos últimos anos. Vejo o GUDDS! como um grupo de grande importância, porém que desviou de seu caminho; a vitoriosa organização do ENUDS em 2009 é um excelente balanço do grupo, por exemplo, mas a ausência de uma militância mais presente no cotidiano universitário vem estagnando os avanços obtidos em nível de direitos humanos e cidadania na universidade. Isso é algo a ser pensado, tando de forma política programática quanto de intervenção social.

    Gustavo Melo
    COLTEC/UFMG

  5. Melissa à abóbrinha teve uma foto de destaque no jornal estado de minas, onde fica claramente retratado o que foi dito no texto acima.

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