A casa da cadela e a casa dos homens

Casa das Cadelas


Vestibular que abre as pernas

Nova Lima é a casa dela

Vestibular que abre as pernas

Nova Lima é a casa dela

É casa, é casa, é casa de cadela

Casa, casa, casa de cadela, então

Late que eu tô passando

Late que eu tô passando

Late que eu tô passando

Cadela da Milton Campos

Late, late, late que eu tô passando

Late, late, late, que eu tô passando

Aproveita que tem grana

E paga um motel motel

A casa de Nova Lima

Mais parece um bordel

Late que eu tô passando…

A música transcrita acima faz parte do repertório da charanga da Faculdade de Direito da UFMG. Músicas como essa são boladas e ensaiadas durante o ano inteiro para serem entoadas em eventos como o Jogos Jurídicos e Calouradas. A lógica é parecida com a das torcidas organizadas, mas no lugar de um time de futebol a disputa é entre faculdades e alguns valores próprios são ressaltados e os concorrentes insultados. Os estudantes da UFMG na maioria das músicas enfatizam sua inteligência e depreciam as outras faculdades por pagarem, possuírem vestibulares fáceis e em várias ocasiões fazem menções as mulheres fáceis, as cadelas.

Diversos são os aspectos que poderiam ser analisados a partir dessa música, mas, por mais estranho que pareça, nesse oito de março de 2012, o foco será no comportamento masculino e na construção da masculinidade em nossa sociedade.

Butler nos informa que o processo performativo de construção da identidade masculina heterossexual é construído através da negação cotidiana de qualquer comportamento ou signo que possa ser interpretado como feminino. O tornar-se homem é o não se tornar mulher. Podemos perceber isso na forma como os meninos são criados. Quando bebês é muito comum que meninos integrem universo feminino, ou seja, estão sempre com a mãe, brincam indistintamente com meninos e meninas, até vão com a mãe no banheiro feminino em locais públicos. Porém quando adquirem uma certa idade são removidos do universo feminino, devem brincar com meninos, frequentar o banheiro masculino e se distanciar um pouco da mãe e se aproximar do pai (se é que existe ou está presente), ou seja, devem fazer coisas “de homem”. É o que o pensador Daniel Welzer-Lang chama de a casa dos homens, esses espaços frequentados exclusivamente por homens e importantes para sua formação nos padrões do masculino.

A casa dos homens é o lugar metafórico para onde os meninos, iniciantes, vão para aprender o masculino e tornar-se homem, aceitando as regras dos antigos, já iniciados. A casa possuí diversos quartos, salas, ou seja, etapas. E a cada etapa conquistada o menino vai se tornando iniciante para uma nova, mas ao mesmo tempo iniciado, que pode iniciar outros nas etapas já conquistadas. É uma espécie de rito de passagem. Uma das formas de se iniciar na casa dos homens é pelo esporte, o aprendizado do futebol é uma forma para o menino se afirmar que não deseja ser mulher – que como diz o manual são frágeis e não praticam essas coisas -, é a construção do corpo rígido, duro, viril. É o aprendizado de que homem não chora, de outros maneirismos e gestuais típicos.

A construção do masculino é, ao mesmo tempo, “a submissão ao modelo e obtenção de privilégios do modelo” (WELZER-LANG, 2001). A submissão ao modelo é feita, muitas vezes, por meio de violências e abusos dos já iniciados: são socos, chutes, brigas, roubos, violências sexuais e pela criação e entonação de músicas como a Casa das Cadelas. Essas violências são repetidas por aqueles que sofreram, até mesmo como uma forma de exorcização da experiência passada, a medida que o menino se adequa ao modelo e adquire o poder. Esse processo de iniciação e de violência tem como alvo principal o feminino, ou tudo aquilo que pode ser ligado ao feminino. Basta perceber que quem mais sofre são os meninos efeminados, que não se encaixam no modelo. É esse processo que distanciará o homem da mulher. O feminino é hierarquizado como inferior ao masculino, como frágil e servil: são as “cadelas da Milton Campos”, meros objetos do desejo sexual, que abrem as pernas.

A casa dos homens não termina junto com a adolescência, mesmo o homem adulto é continuadamente cobrado para assumir papeis masculinos: são as perguntas sobre quando irá arrumar uma esposa, quando irá arrumar um filho, a cobrança para que consiga sustentar sua família. A falta nesses critérios pode ser identificado como uma fraqueza, uma propensão ao feminino. A casa dos homens existe em praticamente toda a cultura ocidental, mas sua “geografia”, ou seja, a forma como se dá varia bastante em cada país, estado, cidade, bairro, classe social.

Mas, qual a importância de falar sobre o homem e a construção do masculino nesse oito de março? Toda. A dominação masculina, a violência de gênero tem raízes nos significados culturais que damos ao feminino e ao masculino. Buscar um mundo mais justo em questões de gênero implica nos perguntar quais são os modelos de masculinidade e feminilidade que desejamos que sejam reproduzidos. Não é suficiente empoderarmos economicamente as mulheres, inseri-las no mercado de trabalho, pois isso se torna mais uma jornada, uma vez que ainda não as desresponsabilizamos dos cuidados da casa e de um sem número de funções, nem acaba com a ideia de que o corpo feminino é violentável.

Precisamos perceber que a masculinidade deve ser repensada, de uma forma a não ser construída com bases na rejeição e violência do feminino. Na atualidade há diversos modelos de masculinidade, diversas formas de ser homem e precisamos evidenciar e/ou tornar possível outros modelos de masculinidade que não se baseiem na violência ao feminino, masculinidades não sexistas e homofóbicas. É preciso ressignificar o masculino para ao mesmo tempo ressignificar o feminino como algo positivo e valorável. Reapropriar o feminino de sua autonomia sexual: para que a casa da cadela deixe de ser um insulto e algo negativo, para ser um lugar de reconhecimento da sexualidade feminina e experimentação do próprio gozo. É preciso borrar fronteiras para que feminino e masculino não sejam pensados como opostos e excludentes, para que possa ser legítima uma masculinidade feminina e um feminilidade masculina, para que masculino ou feminino não sejam categorias de dominação.

Se tudo isso não for possível, abandonemos então a masculinidade e a feminilidade. Prefiro não ser nada a vivenciar uma experiência de violência e subalternização do outro, quer dizer, da outra.

Referências


BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 2008.


PRECIADO, Beatriz. Testo Yonqui. Madri: Espasa Calpe, 2008


WELZER-LANG, Daniel. A construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 2, 2001

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