Seus olhos embotados de cimento e lágrima

Texto belíssimo de Tayane Lino e Rafaela Vasconcelos a respeito do assassinato de Priscila Brandão e da violência gritante da qual os/as travestis têm sido vítimas nas últimas semanas. Texto e fotos publicados originalmente no blog Aquenda, Mona!.

crime_sceneEm meio a olhos marejados, em uma tristeza que teimava em se manifestar – no rosto de uma jovem morta, de uma mãe inconsolável, de amigos indignados, de um irmão que clama por justiça – que se prolongou pela madrugada e logo cedo com o montante de e-mails sobre uma nova agressão, me pergunto porque? Porque os gritos, as piadas, os xingamentos, as ofensas, os insultos, as pedradas, as pauladas, os tiros? O que torna esse grupo passível a violência? Sujeitos asujeitados, com um passado esquecido, um presente incerto e um futuro assustador? Será que ao desafiar as normas reguladoras dos gêneros e da sexualidade elas e eles deixam de ser humanos? Ao se tornarem seres mutantes que, um dia ousaram desejar ser outra coisa as portas do mundo estão fechadas e ninguém mais se importa com sua existência?

Uma indignação paira sobre nós quando vemos o rumo que as notícias têm tomado, e explicitado o lugar de abjeção que as/os travestis têm ocupado. Longe de uma sub-cidadania as/os travestis estão fora do entendido como humano. Os meios de comunicação parecem estar em um esforço continuo de manutenção das desigualdades e desumanidades ao abordarem a morte brutal e a violência com pano de fundo das discussões, reflexões e ações, e reforçarem a idéia de que a morte de uma travesti evidencia a “intranqüilidade” e o perigo que os “cidadãos de bem” que morram próximos aos pontos de prostituição da cidade estão sujeitos.

Depois de uma trajetória de sofrimentos e coragem para modificações corporais, de rejeição e conflitos familiares, de hostilidade e humilhação pela sociedade, acabar a vida sendo baleada e assassinada no meio da rua: O que noticiar sobre esta situação? Vamos falar dos incômodos da classe média em ter que enxergar o que ela faz com quem não tem a vida que ela acha válida. Parece ser esta a premissa dos veículos de comunicação do Estado ao noticiar as atrocidades que ocorreram esta semana em Belo horizonte.

Ao noticiarem as mortes de travestis sempre ligadas ao envolvimento com drogas, brigas por pontos de prostituição, ou conflitos entre as travestis/transexuais a mídia banaliza, justifica e/ou diminui a violência de tais ações. A história de Priscila como a de tantas outras travestis espalhadas pelo Brasil termina “no chão feito um pacote flácido” agonizando “no meio do passeio público”, morrendo “na contramão atrapalhando o tráfego” e incomodando quem teria que acordar cedo para trabalhar.

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