A falta de direitos e a insegurança

insecurity

Recentemente me lembrei de um senhor que conheci certa noite em um bar. Sinceramente, não me recordo seu nome, mas lembro-me perfeitamente como era sua feição e a maneira como tratava todos ao redor. Seus cabelos eram pretos reluzentes, tinha a pele clara e toda vez que fingia uma feição séria na mesa daquele bar levantava sua sobrancelha direita em referência a Bette Davis. Ele orgulhava-se de saber interpretar os trejeitos da atriz americana.

E em menos de duas horas, aproximadamente, que havíamos conversado, ele havia me contado varias histórias de sua vida. Sendo uma destas histórias, aquela que foi primordial para a maneira como ele via a vida. Apesar de uma tristeza, quase escondida no fundo dos olhos, aquele senhor esforçava-se para que todos naquela mesa se sentissem felizes, alegres. E depois de perceber o lado generoso daquele homem, fui enfático, disse a ele que nunca havia conhecido alguém tão positivo como ele, no sentido de tentar elevar o espírito dos seus próximos, mesmo que estes fossem desconhecidos, como eu era naquela noite.

– Mas nem sempre sou assim, tão positivo. Respondeu-me ele.

E depois de me fazer essa ressalva, ele me contou que havia morado durante muitos anos na Inglaterra por conta de um problema gerado por outro homem. Esse homem em questão era o padre que o havia molestado quando ele tinha por volta de 17 anos. E para se safar dessa história, o padre havia o dado uma passagem para o Reino Unido e alguns trocados, como se esta fosse a reparação necessária. Ele ainda me contou, sem nenhuma reserva, que com o dinheiro que conseguiu do padre, a partir de chantagens, e com o trabalho no país estrangeiro, havia comprado um prédio inteiro na região da Pampulha e dado de presente para sua mãe.

E relembrando da história deste conhecido, dei-me conta do quanto a vida pode nos surpreender, de quantos desencontros temos que passar para encontrar algum rumo. Quando me lembro desta história, sinto isso. Já conheci tanta gente boa, de bom coração, mas que por algum motivo foram vitimadas pelo destino. E quando questiono isso, não falo apenas dos homossexuais. No texto A Paloma e a Elisa, que está logo abaixo, pudemos perceber a violência que é praticada contra mulheres. Segundo dados da Fundação Perseu Abramo, a cada 15 segundos uma mulher é vitima de violência doméstica. Ainda segundo a instituição, 70% das mulheres assassinadas já haviam prestado queixa de violência domestica.

E questionar esse tipo de insegurança, desses desencontros, não é algo meramente interior. Sinceramente, ao olhar para estas questões, vejo o quanto o Brasil ainda é parcimonioso em julgar determinados grupos, no sentido de legitimá-los. Isso pra não dizer desrespeitoso. Nessas horas, fico me perguntando o que se pode esperar de um relacionamento homoafetivo, sendo que este tipo de união não é contemplada pelo Estado e conseqüentemente grande parte desses relacionamentos sofrem de um mal chamado insegurança. Você pode ter uma noite arrebatadora ao lado de uma pessoa, mas na manhã seguinte, a pessoa que dormiu ao seu lado pode ser a primeira a lhe virar o rosto.

Não sou formado em Direito, e sinceramente, a minha sabedoria acerca dessa área é bem rasa. Mas apesar disso, tenho uma convicção: sentimentos como insegurança, medo, angústia e descrença só serão sanados a partir de um reconhecimento legitimo por parte do Estado para a questão homoafetiva.

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Uma resposta para “A falta de direitos e a insegurança

  1. Acho interessantissima essa sua visão. Mostra como a ausência de um reconhecimento jurídico afeta muito mais do que meros direitos, mas sim o indivíduo em sua subjetividade.

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