Comunicadores, reflitam…

Via Mariana Septímio, pela lista de discussão:

É fato: as notícias ainda são masculinas

Em 130 países e durante 24 horas, voluntários e voluntárias, jornalistas e comunicadores, acompanharam a transmissão/publicação ao vivo de notícias em emissoras de rádio e televisão e em jornais. O objetivo? Analisar a cobertura da mídia sobre as mulheres. Foram 6.902 matérias, nas quais apareceram 14.044 entrevistados e entrevistadas.

O resultado, infelizmente, já era esperado: em comparação aos homens, as mulheres continuam sub-representadas; foram apenas 24% das fontes e 16% do foco das pautas. Os dados foram apresentados esse mês na 54ª. Sessão da Comissão das Nações Unidas sobre o Estatuto da Mulher, em Nova York, Estados Unidos. São ainda análises preliminares: o resultado final do monitoramento, conduzido pela WACC (A Associação Mundial para a Comunicação Cristã, em português) e bancado pelo Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem), será publicado apenas em setembro.

Outra constatação divulgada nessa primeira etapa é a de que metade das notícias – 48% – reforçam os estereótipos de gênero e apenas 8% os questionam. Segundo o monitoramento, matérias realizadas por repórteres mulheres dão mais espaço a mulheres nas entrevistas, em comparação a matérias de repórteres homens. Ou seja, a invisibilidade das mulheres é também fruto de como os/as jornalistas constroem as pautas.

Diante disso, e sempre com a expectativa de mudar um pouco essa realidade, volto a publicar aqui uma proposta mínima de um “manual de redação” que, caso aplicado, poderia diminuir as disparidades:

1) Toda a violência contra a mulher deve noticiada de forma abrangente, não como um caso isolado, e jamais como apenas algo “passional”, mas sim social, decorrente da posição de “proprietário” exercida pelo homem dentro do casal;

2) Nunca se referir a uma pessoa apenas como “a mulher de alguém”, mas sim como um ser humano completo, com profissão, rosto, nome e sobrenome;

3) Não explorar o corpo da mulher por meio de imagens e/ou texto; exemplo: em pautas sobre o calor no Rio de Janeiro, encontrar outras formas de retratar a situação que não sejam mulheres de biquíni em fotos super ampliadas;

4) Consultar sempre a mulher como fonte e de preferência não somente como personagem – leia-se a dona-de-casa que comenta o aumento do pão francês –ou como celebridade;

5) Adotar uma linguagem com preocupação de gênero, ou seja, que as palavras sejam utilizadas tanto no masculino quanto no feminino. Isso vale também para a questão da mulher não ser mencionada mais no primeiro nome (o que reflete uma proximidade e uma intimidade com o leitor irreais) enquanto o homem é referido pelo sobrenome (o que inspira autoridade).

Não é tão difícil assim, é?

(Escrito por Maíra Kubík Mano – Jornalista, cientista política e editora de Le Monde Diplomatique Brasil)

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