Curso de atendimento GLS ajuda setores hoteleiro e gastronômico a evitar gafes

Da Folha de São Paulo, de Vanessa Correia (original aqui)

Um casal de mulheres sai para jantar. Refeição feita, hora de pedir a conta. Para quem o garçom deve entregá-la? Dois homens chegam a um hotel. O recepcionista deve imediatamente oferecer um quarto com duas camas? Nos dois casos, a dúvida e o medo da gafe são comuns.

Para evitar constrangimento e por o cobiçado público gay para correr– dizer que eles têm alto poder aquisitivo e são muito exigentes já virou clichê– profissionais dos setores hoteleiro e gastronômico paulistano já buscam se especializar.

Quem fez o curso Atendimento GLS, da SPCVB (São Paulo Convention & Visitors Bureau), sabe que, no primeiro caso, a conta deve ser colocada no meio da mesa ou entregue para quem a pediu. No segundo, o melhor é oferecer as opções de quarto disponíveis e não presumir imediatamente que se trata de dois heterossexuais.

Desde o início da Parada Gay, em 1997, a participação do público GLS no turismo de São Paulo tem aumentado e há um esforço para entender como essas pessoas gostam de ser recebidas. Por isso a SPCVB decidiu oferecer o treinamento, explica seu diretor-superintend ente, Toni Sando de Oliveira.

Os profissionais das regiões da av. Paulista e do Centro são os que mais procuram o curso: são um terço dos 847 participantes do curso, que ocorre desde 2007. Há uma concentração da comunidade homossexual nessas regiões, que estão interligadas em um circuito bem definido pelas ruas Augusta e Frei Caneca, segundo Franco Reinaudo, um dos palestrantes do treinamento e atual coordenador da CADS (Coordenadoria de Assuntos de Diversidade Sexual da Prefeitura de São Paulo).

A região denominada pela entidade de Anhembi/Zona Leste responde por 17% do público, seguida pela região da av. Luís Carlos Berrini, com 10%. De acordo com Reinaudo, “o curso busca acostumar as pessoas a olhar para a diferença”. “Como o mundo é predominantemente hétero, as pessoas tendem a ter um olhar hétero para tudo”, diz.

Ele conta que um aluno, recepcionista de hotel, viu um colega ficar apavorado ao atender um lutador de Jiu-Jitsu –estereótipo do machão– acompanhado de outro homem. Pensou que poderia enfurecê-lo ao levá-lo até um quarto com cama de casal, que era o que constava na reserva. Por outro lado, se perguntasse se a reserva estava errada, e se tratasse realmente de um casal, estaria sendo preconceituoso. Ele decidiu levar o cliente ao quarto reservado, e deu tudo certo.

O medo de ser levado à Justiça também motiva a participação no treinamento. Depois de ser processado, um dono de restaurante inscreveu todos os seus garçons no curso, relata o palestrante. O conflito surgiu quando um casal de mulheres que celebrava o aniversário do relacionamento no local foi mau atendido. Elas pediram um bolo, que nunca chegava. Quando questionaram o garçom sobre a demora, ele disse que decidiu não fazer o pedido à cozinha porque a comemoração não era apropriada para um lugar com famílias presentes.

Profissionais de setores mais, digamos, burocráticos, também buscam o treinamento. É o caso do escrevente Fábio Tadeu Boquetti, que trabalha em um cartório no bairro Indianópolis. Ele relata o constrangimento que foi quando uma transsexual chegou ao local para abrir firma. Ela entregou seu RG e o funcionário que a atendia disse: “mas esse é o documento do João”. E a cliente: “eu sou o João”.

A história ilustra o que pode ser considerado um dos mantras do curso: nunca presumir heterossexualidade ou homossexualidade. O próximo será em 25 de março, na al. Ribeirão Preto, 130, 12º andar, onde fica a sede da SPCVB (00/xx/11/3736-0600).

ENTENDENDO A SEXUALIDADE

A sexualidade humana compõe-se de quatro fatores que se completam:

  • Sexo biológico (características do corpo);
  • Identidade de gênero (quão masculino ou feminina acredito ser);
  • Papel de gênero (como me comporto);
  • Orientação sexual (quem desejo);
  • Identidade de gênero e orientação sexual são eixos diferentes da sexualidade: estima-se que apenas 10% dos transgêneros são homossexuais.

COMO ATENDER O PÚBLICO GLS

  • Não presumir que uma pessoa é heterossexual só porque tem aparência comum;
  • Não exagerar na intimidade afim de mostrar-se não preconceituoso;
  • Nunca dizer “opção”, “escolha” ou “preferência sexual”. As pessoas tem “orientação sexual”, não escolhem sua sexualidade.

Transgêneros

  • Tratar a pessoa pelo nome social e usar a etiqueta sexual do gênero com que ela se apresenta;

Casais de pessoas do mesmo sexo (em restaurantes e recepções)

  • Perguntar quem vai degustar o vinho;
  • Colocar a conta no meio da mesa ou entregar a quem pediu;
  • Nunca achar que duas mulheres estão esperando por uma companhia masculina;
  • Puxar a cadeira para as duas mulheres;

Situações de conflito

  • Aplicar as mesmas regras usadas com heterossexuais;
  • Beijos e demonstrações de afeto devem ser permitidos ou proibidos para todos;
  • Quando heterossexuais homofóbicos reclamam, mencionar a legislação contrária à homofobia ou explicar que a postura do estabelecimento é de respeito à diversidade.

Fonte: Apostila do curso Bem Receber – Módulo GLS, da São Paulo Travel & Visitors Bureau

Anúncios

Os comentários estão desativados.